Neste texto pretendo englobar um pouco sobre treinamento, desempenho e saúde, começando com a seguinte pergunta:
O exercício físico melhora o desempenho?
Você certamente acredita que sim, não é? Afinal de contas você treina e percebe sua melhora com o passar do tempo. Mas caso você acredite que o exercício melhora o desempenho, pasme você, pois está errado!
O exercício físico não melhora seu desempenho, pelo contrário, ele tende a piorá-lo causando um desequilíbrio. Uma prova disso é quando você executa um treino de força qualquer, como uma série de climbs e, ao final do treino, percebe que sua escalada fica mais lenta e difícil. Outro exemplo é quando você faz um treino exaustivo de força em um dia e quando tenta repeti-lo no dia seguinte, sente que seu desempenho não está como no dia anterior.
Então o que melhora o desempenho???
A resposta é simples, O DESCANSO! O exercício físico não faz muito mais que enviar uma maior quantidade de sangue para os músculos ativos e alguns hormônios na circulação. Aliás, o exercício causa um grande desgaste para o corpo, através de stress mecânico e químico, destruindo estruturas corporais por causa da acidose e provocando um grande desequilíbrio no metabolismo.
Imagine você aí sentado em frente ao computador, em repouso. Certamente está em um estado que chamamos de homeostase, que implica no equilíbrio das funções biológicas do corpo. Ou seja, seu metabolismo está em um ritmo normal. Vamos supor que você decida sair e ir treinar agora. Quando você começa a atividade, seu gasto energético aumenta, assim como a velocidade das reações do corpo, respondendo aos estímulos que o exercício está lhe oferecendo. Consequentemente há um maior desgaste e queda do desempenho, e quando você acaba o treino e volta ao estado de repouso, é a hora que seu organismo irá trabalhar exaustivamente na sua recuperação, renovando suas estruturas celulares, estoques de energia etc. Seu corpo tende a voltar para o estado de homeostase, porém não é como a anterior ao exercício, ela é maior (melhor) que antes e nós a chamamos de homeostase adaptada. Esse processo acontece no dia a dia de um treinamento bem planejado (que consiste em uma boa dosagem de sono, alimentação, exercício e descanso adequados).
Os gráficos abaixo ajudam a visualizar esse processo de treinamento:

O ponto A representa um indivíduo em repouso e que, logo em seguida, realiza qualquer atividade física que faz com que o desempenho caia (intervalo AB). O intervalo BC corresponde à recuperação (descanso), e o intervalo em destaque, CD, corresponde à supercompensação, que é onde o corpo se adapta ao estímulo dado no treino. Essa adaptação ocorre como um sistema de defesa do organismo, e o termo ORGANISMO é dado justamente pela capacidade que o corpo tem de se reestruturar, melhorando o desempenho, como no ponto D (homeostase adaptada), a qual é maior que a do ponto A. É no ponto D que devemos dar outro estímulo de treino, permitindo uma melhora gradual ao longo de todo período de treinamento.

Já a imagem acima é um esboço de um treinamento com aumento progressivo do desempenho. Mas, e para esse descanso, quanto tempo deve ser dado?
A resposta para essa pergunta depende da intensidade do exercício, mas em geral por volta de 24 até 72 horas. Essa variação ocorre porque treinos leves demandam descansos menores que treinos mais exaustivos! No caso do Parkour cada praticante deve ter conhecimento do próprio corpo a fim de determinar o tempo de descanso necessário, de acordo com o tipo de treino, unindo bom senso a um pouco de conhecimento sobre treinamento, tomando cuidado para que não seja curto e nem longo demais. Há também que tomar muito cuidado com o intervalo entre os exercícios que realizamos em um mesmo treino, não os deixando, também, breves ou extensos demais.
No caso de um descanso longo demais e curto demais os gráficos seriam assim, respectivamente:

O gráfico mostra um estímulo de treino correto, porém um grande intervalo de descanso, fazendo com que a pessoa não tenha um aumento progressivo do desempenho devido ao efeito do destreino. É o exemplo de praticantes que treinam apenas em finais de semana, que apesar de poderem melhorar o aprendizado da técnica, não conseguem bons resultados em força.
Já neste último caso, o descanso dado foi curto demais, não gerando a supercompensação, e assim, não aumentando o desempenho. É por esse motivo que recomendo alternar o treinamento de força (não realizando o MESMO treino de força em dias consecutivos, pois o descanso de 24 horas pode ser pequeno demais).

Outro exemplo de treinamento que não gera grandes melhorias, é aquele em que o estímulo é fraco demais (estímulo "débil"), que é o caso de pessoas que realizam apenas alguns SDCs aqui, 4 tic tacs alí e finalizam. Tanto em relação à técnica quanto em adaptações de força, o treino não é muito válido. Sendo que se o praticante fizer o contrário, exercícios demais, ou passando muito da intensidade adequada para ele, pode não ter benefícios também, causando danos no organismo. O ideal é fazer treinos equilibrados com estímulos fortes, tomando cuidado para não deixar a intensidade muito baixa ou muito alta.
Está aí o porquê de não melhorarmos de uma hora pra outra. O processo do treinamento envolve muita disciplina e cuidados especiais, como o sono, escolha dos exercícios e a alimentação. Como disse Nuno Cobra (preparador físico de Ayrton Senna, Mika Hakkinen, Christian Fittipaldi e outros atletas de rendimento por muitos anos) em seu livro "A Semente da Vitória", o fator mais importante para um bom desempenho é o sono! Nele é quando podemos nos recuperar, onde o corpo pode se reorganizar por completo, e é interessantíssimo que saibamos qual é o tempo necessário que devemos dar ao sono, pois cada pessoa possui necessidades diferentes. Então conheça a si mesmo e experimente ver qual é a melhor maneira de treinar, se alimentar e o melhor tempo para descansar!
Por falar em alimentação, esta é a segunda maior importância considerado por Nuno para o desempenho, deixando a atividade física apenas em TERCEIRO LUGAR!
Em primeiro momento, pode parecer estranho pensar assim, mas não dá para pensar em saúde e desenvolvimento sem a íntima ligação entre SONO, ALIMENTAÇÃO e EXERCÍCIO. São 3 pilares fundamentais do treinamento, e pode-se resumir essa tripla ligação da seguinte forma:
A atividade física regular promove várias adaptações a longo prazo, uma delas é a melhoria da capacidade cardiovascular, ou seja, melhora da circulação sangüínea e da capacidade respiratória, tornando o transporte sangüíneo mais fácil, promovendo um melhor aproveitamento do oxigênio, dos nutrientes e do processo regenerativo das células. Quando você acaba de voltar do treino, está exausto, assim precisa de uma boa alimentação para repor os estoques de energia e para regenerar tecidos lesados e estoques de energia. Sendo assim, com uma melhoria da circulação em geral, todos os transportes do corpo ocorrem de modo mais facilitado, fazendo com que a recuperação seja eficiente, e não há algo melhor que uma boa noite de sono para seu organismo se recuperar por completo.
Unindo bons hábitos de sono, alimentação e atividade física estamos criando, além de um bom desempenho no Parkour, nos tornando mais saudáveis! E essa é uma das vantagens que o Parkour nos oferece, pois ao contrário de atletas de rendimento de qualquer modalidade, podemos nos desenvolver e ainda assim sempre mantermos saudáveis, evoluindo sempre no nosso limite e sem pressa de melhorar. Diferentemente de atletas que treinam com referência no desempenho dos outros, fazendo com que fiquem bem próximos de algum tipo de lesão.
Tenha hábitos saudáveis, pois assim você melhora em todos os sentidos, tanto no Parkour quanto na vida cotidiana. Cuide bem do seu corpo, pois ele é o que você tem de mais precioso!
Bons treinos.
Referências Bibliográficas:
1. WEINECK, Jürgen. Treinamento ideal: instruções técnicas sobre o desempenho fisiológico, incluindo considerações específicas de treinamento infantil e juvenil.. 9 ed. Barueri 2006.
2. FLECK, Steven J.; KRAEMER, William J. Fundamentos do treinamento de força muscular. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
3. MCARDLE, William D.; KATCH, Frank L.; KATCH, Victor L. Fisiologia do exercício: energia, nutrição e desempenho humano.. 5.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.
4. HAMILL, Joseph; KNUTZEN, Kathleen M. Bases biomecânicas do movimento humano.. Barueri: Manole, 1999.
5. HALL, Susan J. Biomecânica básica.. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.
6. RIBEIRO, Nuno Cobra. A semente da vitória. 16. ed. São Paulo: Ed. SENAC, 2001.
João Flávio Baêta
Julho/2007 (Atualizado em Maio/2010)